segunda-feira, 23 de abril de 2012

Filhos e Netos


Filhos e Netos

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos. É que
as crianças crescem independentes de nós,
como árvores tagarelas, e pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença à vida.







Crescem com uma estridência alegre e, às
vezes com alardeada arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de igual
maneira, crescem de repente. Um dia
sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde é que andou
crescendo aquela danadinha que você não
percebeu? Cadê a pazinha de brincar na
areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do Maternal? A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência
civil. E você está agora ali, na porta da dis

coteca, esperando que ela não apenas cres-
ça, mas apareça.
Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins
e cabelos longos, soltos. Entre hamburgeres e refrigerantes nas esquinas, lá estão
nossos filhos com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos
ombros. Ali estamos, com os cabelos esbranquiçados. Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar apesar dos golpes
dos ventos, das colheitas, das notícias, e
da ditadura das horas. E eles crescem
meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros, que esperamos que
não repitam.
Há um período em que os pais vão ficando
um pouco órfãos dos próprios filhos. Não
mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas. Passou o tempo do ballet,
do inglês, da natação e do judô. Saíram
do banco de trás e passaram para o volante das suas próprias vidas. Deveríamos ter
ido mais à cama deles ao anoitecer para
ouvirmos sua alma respirando conversas
e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele
quarto cheio de adesivos, posters, agendas
coloridas e discos ensurdecedores. Não
os levamos suficientemente ao Playcenter,
ao Shopping, não lhes demos suficientes
hamburgeres e cocas, não lhes compramos
todos os sorvetes e roupas que gostaríamos
de ter comprado.
Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto. No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos. Sim,
havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e
cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a
ser um esforço, um sofrimento, pois era
impossível deixar a turma e os primeiros
namorados. Os pais ficaram exilados dos
filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas de repente, morriam de saudades daquelas “pestes”. Chega o momento
em que só nos resta ficar de longe torcendo
e rezando muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para
que eles acertem nas escolhas em busca da
felicidade. E que a conquistem do modo
mais completo possível. O jeito é esperar.
A qualquer hora podem nos dar netos. O
neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que
não pode morrer conosco. Por isso os avós
são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso é necessário fazer alguma coisa a
mais. Antes que eles cresçam. . . ”

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