segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pedido de Demissão






Venho, por meio desta, apresentar oficialmente meu pedido de demissão da categoria dos adultos.
Resolvi que quero voltar a ter as responsabilidades e as idéias de uma criança de
oito anos, no máximo.
Quero acreditar que o mundo é justo, e que
todas as pessoas são honestas e boas.
Quero acreditar que tudo é possível.
Quero que as complexidades da vida passem despercebidas por mim, e quero fi-
car encantado com as pequenas maravilhas




deste mundo.
Quero de volta uma vida simples e sem
complicações.
Estou cansado de dias cheios de computadores que falham, montanhas de papelada,
notícias deprimentes, contas a pagar, fofocas, doenças, e necessidade de atribuir um
valor monetário a tudo o que existe.
Não quero mais ter que inventar jeitos para
fazer o dinheiro chegar até o dia do próximo pagamento.
Não quero mais ser obrigado a dizer adeus
a pessoas queridas e, com elas, a uma parte
da minha vida.
Quero ter certeza de que Deus está no céu,
e de que, por isso, tudo está direitinho neste mundo.
Quero ir ao Mcdonalds ou a pizzaria da esquina, e achar que é melhor que um restaurante cinco estrelas.
Quero viajar ao redor do mundo no barqui-
nho de papel que vou navegar numa poça
deixada pela chuva.

Quero jogar pedrinhas na água e ter tempo
para olhar as ondas que elas formam.
Quero achar que as moedas de chocolate
são melhores do que as de verdade, porque podemos comê—las e ficar com a cara
toda lambuzada.
Quero ficar feliz quando amadurece o primeiro caju ou a primeira manga, quando a
jabuticabeira fica pretinha de fruta.
Quero poder passar as tardes de verão à
sombra de uma árvore, construindo castelos no ar e dividindo-os com meus amigos.
Quero voltar a achar que chicletes e picolés são as melhores coisas da vida.
Quero que as maiores competições em que
eu tenha de entrar sejam um jogo de gude
ou uma partida de futebol...
Eu quero voltar ao tempo em que tudo o

que eu sabia era o nome das cores, a tabuada, as cantigas de roda, a “Batatinha quando nasce”, e a “Ave Maria”, e isso não me
incomodava nadinha, porque eu não tinha
a menor idéia de quantas coisas eu ainda
não sabia...
Voltar ao tempo em que se é feliz, simplesmente porque se vive na bendita ignorância da existência de coisas que podem nos
preocupar e aborrecer.
Eu quero acreditar no poder dos sorrisos, dos abraços, dos agrados, das palavras
gentis, da verdade, da justiça, da paz, dos
sonhos, da imaginação, dos castelos no ar
e na areia.











E o que é mais: quero estar convencido de

que tudo isso vale muito mais do que o dinheiro!
Por isso, tomem aqui as chaves do carro, a
lista do super mercado, as receitas do mé-
dico, o talão de cheques, os cartões de cré-
dito, o contra-cheque, os crachás de identificação, o pacotão de contas a pagar, a
declaração de renda, a declaracão de bens,
as senhas do meu computador e das contas no banco, e resolvam as coisas do jeito
que quiserem. A partir de hoje, isso é com

vocês, porque eu estou me demitindo ......

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