segunda-feira, 23 de abril de 2012


A Morte da Vaquinha
Um filósofo passeava por uma floresta com um discípulo, conversando sobre
a importância dos encontros inesperados.
Segundo o mestre, tudo que está diante de
nós, nos dá uma chance de aprender ou ensinar.
Neste momento, cruzavam a porteira de
um sítio que, embora muito bem localizado, tinha uma aparência miserável. Veja
este lugar, comentou o discípulo. O senhor
tem razão: acabo de aprender que muita
gente está no paraíso, mas não se dá conta
e continua a viver em condições miserá-
veis. Eu disse aprender e ensinar, retrucou
o mestre. Constatar o que acontece não
basta: é preciso verificar as causas, pois
só entendemos o mundo quando entendemos as causas. Bateram à porta e foram recebidos pelos moradores: um casal e três
filhos, com roupas rasgadas e sujas.
O senhor está no meio desta floresta, e não
há qualquer comércio nas redondezas, disse o mestre para o pai de família. Como sobrevivem aqui?
E o senhor, calmamente, respondeu: Meu
amigo, nós temos uma vaquinha, que nos
dá vários litros de leite todos os dias. Uma
parte deste produto nós vendemos ou trocamos na cidade vizinha por outros gê-
neros de alimentos; com a outra parte,
nós produzimos queijo, coalhada, manteiga para o nosso consumo. E, assim, vamos
sobrevivendo.
O filósofo agradeceu a informação, contemplou o lugar por uns momentos e foi
embora. No meio do caminho, disse ao
discípulo: Procure a vaquinha, leve-a ao
precipício ali em frente e jogue-a lá embaixo.
E o discípulo retrucou: Mas ela é a única
forma de sustento daquela família!
O filósofo permaneceu mudo. Sem ter outra alternativa, o rapaz fez o que era pedido, e a vaca morreu na queda. A cena
ficou marcada na sua memória. Depois de
muitos anos, quando já era um empresário
bem sucedido, resolveu voltar ao mesmo
lugar, contar tudo à família, pedir perdão e
ajudá-los financeiramente.
Qual foi sua surpresa ao ver o local transformado num belo sítio, com árvores floridas, carros na garagem e algumas crianças brincando no jardim. Ficou desesperado, imaginando que a família humilde tivera que vender o sítio para sobreviver. . . apertou o passo, e foi recebido por
um caseiro muito simpático.
Para onde foi a família que vivia aqui há
dez anos?, perguntou. Continuam donos
do sítio, foi a resposta. Espantado, ele entrou correndo na casa, e o senhor o reconheceu. Perguntou como estava o filósofo,


mas o rapaz estava ansioso demais para saber como conseguira melhorar o sítio e fi-
car tão bem da vida.
Bem, nós tínhamos uma vaca, mas ela caiu
no precipício e morreu, disse o senhor. Então, para sustentar minha família, tive de
plantar, com os últimos trocados, ervas e
legumes. As plantas demoravam a crescer, e comecei a cortar madeira para venda.
Ao fazer isto, tive de replantar as árvores e
precisei comprar mudas. Ao comprar mudas, lembrei-me da roupa de meus filhos e
pensei que podia talvez cultivar algodão.
Passei um período difícil, mas quando a
colheita chegou, eu já estava exportando
legumes, algodão, ervas aromáticas. Nunca havia me dado conta de todo o meu potencial aqui: ainda bem que aquela vaquinha morreu!

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