segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Presente de Insultos



Perto de Tóquio vivia um grande samurai,
já idoso, que agora se dedicava a ensinar
o zen-budismo aos jovens. Apesar de sua
idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.
Certa tarde, um guerreiro — conhecido
por sua total falta de escrúpulos apareceu
por ali. Era famoso por utilizar a técnica
da provocação: esperava que seu adversá-
rio fizesse o primeiro movimento e, dotado
de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com
velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma
luta. Conhecendo a reputação do samurai,
estava ali para derrotá-lo e aumentar sua
fama.
Todos os estudantes se manifestaram contra a idéia, mas o velho aceitou o desa-
fio. Foram todos para a praça da cidade,
e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua dire-
ção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os
insultos conhecidos — ofendendo inclusive seus ancestrais.
Durante horas fez tudo para provocá-lo,
mas o velho permaneceu impassível. No
final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.
Desapontados pelo fato de que o mestre
aceitara tantos insultos e provocações, os
alunos perguntaram:
— Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada,
mesmo sabendo que podia perder a luta,
ao invés de mostrar-se covarde diante de
todos nós?
— Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence
o presente? — perguntou o samurai.
— A quem tentou entregá—lo — respondeu um dos discípulos.
— O mesmo vale para a inveja, a raiva,
e os insultos — disse o mestre. Quan-
do não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo.

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